Tiro

Publicidade, estigmas profissionais ou ideais românticos são chavões que caracterizam a sociedade contemporânea. A evolução acontece na ausência de um espaço para o “pessoal”, há uma recusa do silêncio. Contudo esta dimensão psicótica é contraposta pelo desenvolvimento de actividades de lazer. Algumas caracterizam-se pelo arremesso de objectos como o lançamento do dardo e do disco, o tiro ao alvo, o jogo do fito ou o berlinde.

O imaginário bélico está enraizado na nossa cultura. Na infância somos incentivados a dar o tiro. Constroem-se brinquedos, desenvolvem-se habilidades. A destruição não é considerada, não importa o alvo. A fantasia é realidade num momento de prazer alienado de tudo o resto.

Um ciclo vicioso convida à criação de um mundo paralelo. Um jeito gradual leva à perda de contacto com a realidade. Aqui surge o tiro enquanto lazer, desenvolvido em espaços preparados para a sua prática. Numa natureza idealizada constroem-se momentos sem espectativa.

No tiro, a decisão do disparo é um instante que condensa em si uma história de pensamentos. A necessidade de captar esta dimensão ínfima de tempo coloca um entrave à pintura. Esta, por condensar visualmente uma experiencia arrastada no tempo, não se pode realizar a partir do real.

Desta forma, a fotografia e o vídeo propõem-se como ferramentas para fixar e compilar a informação necessária ao exercício da pintura. A pintura é o tempo para que remete, o tempo que exigiu e o tempo que a observa. Tal como “Uma representação mental é elaborada de um modo quase alucinatório e parece pedir emprestadas as suas características à visão” (Joly, 1994), construir uma pintura envolve um preambular de análise e pesquisa que deve ser farta em registo.

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