Atiro

“Rose is a rose is a rose is a rose.”

Sacred Emily in Gertrude Stein's 'Geography and Plays' (1922) (1)

O imaginário na obra de Alexandre Coxo vagueia algures entre o exercício de contemplação e meditação, pautado pela perseverança no domínio da técnica na arte. Não será descabido situá-la algures entre os pressupostos dos mitos de Prometeu e Orfeu, na dualidade entre o fogo roubado aos deuses e o encantamento dos mesmos pela lira.

Os exercícios propostos por Alexandre nesta exposição são, ainda que pessoais, comuns a todos nós. São exercícios onde a libertação se processa tanto pelo roubo do fogo, no que toca à técnica, como pelo encantamento proporcionado pela meditação, alimento que serve para induzir fenómenos cogitativos no espectador.

 Jacob Bronowski diz-nos que “(...) a pintura rupestre é, tal como o instrumento da pedra lascada, uma tentativa de controlar o ambiente ausente e ambos são criados com o mesmo espírito; são exercícios pelos quais o Homem se liberta dos impulsos mecânicos da natureza.” (2)   

A natureza do Homem Contemporâneo é uma natureza de emulações, baseada em pressupostos sociais mais ou menos rígidos, e de significado muito primitivo. É na tentativa de resposta a um objectivo maior que Alexandre nos atira para o seu imaginário de contradições num exercício depurado que nos liberta e nos convida a procurar o equilíbrio na contradição entre o processo autoral e  o ensaio reflexivo.

(1) STEIN, Gertrude. Geography and Plays. University of Wisconsin Press, 2012.
(2) BRONOWSKI, Jacob. Arte e Conhecimento: ver, imaginar, criar [The Origins of Knowledge and Imagination]. Lisboa: Edições 70, 1983.

 

Carlos Trancoso

Eu Tiro - Reflexão superficial sobre o tempo

A Pintura morreu. Uma, outra e mais uma vez, na História da Arte. A Pintura ressuscitou. A Pintura nunca morreu. Reconheceu os desafios e construiu a partir daí, tornando-se ainda mais viável após a arte conceitual, como uma opção para dar forma à ideia e, portanto, para diferenciá-la de outras possibilidades.
Na série Eu tiro – Reflexão superficial sobre o tempo, a pintura procura ser reflexiva e crítica, organizada em capítulos, como um livro, com uma narrativa temporal, que reflecte ainda sobre o próprio acto de pintar e sobre a sua representação. 
As obras têm por base uma escultura do pé do próprio autor, procurando reflectir sobre os efeitos da passagem do tempo. A peça surge assim física e pictoricamente representada nos três trípticos, em três momentos da sua existência: o quebrar do molde, o quebrar acidental durante um transporte e as histórias paralelas. 

O tempo que origina o fragmento do molde é premeditado.

O tempo que origina o fragmento de mármore é acidental.

O tempo entre acrescenta outras histórias.

Um pouco à semelhança do exercício da cadeira de Joseph Kosuth, a escultura surge de três formas: o objecto real, a sua representação figurativa, a sua representação abstracta e ainda a sua reprodução escultórica.
Para o espectador há também três tempos. Primeiro contempla-se: a paisagem, o céu, as árvores, o horizonte. Depois estranha-se. Algo se contradiz e provoca desconforto. A figuração e a abstracção de um mesmo objecto, numa oposição entre uma representação realista, de tratamento clássico na luz e na sombra, e a sua abstracção geométrica, rigorosa e rígida, causa uma certa estranheza magritteana. Por fim, reflecte-se.

Sara Pinheiro

Tiro

Publicidade, estigmas profissionais ou ideais românticos são chavões que caracterizam a sociedade contemporânea. A evolução acontece na ausência de um espaço para o “pessoal”, há uma recusa do silêncio. Contudo esta dimensão psicótica é contraposta pelo desenvolvimento de actividades de lazer. Algumas caracterizam-se pelo arremesso de objectos como o lançamento do dardo e do disco, o tiro ao alvo, o jogo do fito ou o berlinde.

O imaginário bélico está enraizado na nossa cultura. Na infância somos incentivados a dar o tiro. Constroem-se brinquedos, desenvolvem-se habilidades. A destruição não é considerada, não importa o alvo. A fantasia é realidade num momento de prazer alienado de tudo o resto.

Um ciclo vicioso convida à criação de um mundo paralelo. Um jeito gradual leva à perda de contacto com a realidade. Aqui surge o tiro enquanto lazer, desenvolvido em espaços preparados para a sua prática. Numa natureza idealizada constroem-se momentos sem espectativa.

No tiro, a decisão do disparo é um instante que condensa em si uma história de pensamentos. A necessidade de captar esta dimensão ínfima de tempo coloca um entrave à pintura. Esta, por condensar visualmente uma experiencia arrastada no tempo, não se pode realizar a partir do real.

Desta forma, a fotografia e o vídeo propõem-se como ferramentas para fixar e compilar a informação necessária ao exercício da pintura. A pintura é o tempo para que remete, o tempo que exigiu e o tempo que a observa. Tal como “Uma representação mental é elaborada de um modo quase alucinatório e parece pedir emprestadas as suas características à visão” (Joly, 1994), construir uma pintura envolve um preambular de análise e pesquisa que deve ser farta em registo.

Tiro - Óptica

“Tiro - Óptica” é a tentativa de criar uma pintura fotorrealista pós-fotográfica.
Esta série surge da paisagem urbana do Porto percorrida nos últimos anos. A intenção é produzir pinturas com vários níveis de recepção, para assim, promover uma contemplação activa. Recuperando imagens do romantismo portuense, a atenção reacaiu nos lugares da cidade onde o selvagem coabita com o humano.
Retomando a tónica realista do séc. XIX, e à semelhança dos fotorrealistas do séc. XX, procuro construir imagens cujo rigor se vincula aos pormenores da realidade, mas “baseando-se não na directa visão do real mas numa linguagem elaborada sobre anteriores imagens.” (Maeyer, 1978)

Tiro - Um Homem Que Consegue Mudar

Um Homem que consegue mudar
Só e a sua arte
Para dela fazer
A solidão de quem a vê
Transmitida pelo saber
De quem pode escolher
A sua causa,
Enigmática,
Com doces preconceitos
Molda a visão e o mundo
Molda a solidão de quem vê
Torna-o livre e profundo
Torna-o num Homem
Num Homem que tudo vê.

Daniel Sousa

Tiros - coArtco

“Tiros” é uma série de pinturas que responde ao desafio lançado pela CoArtCo. Nela cruzei o meu processo de trabalho com a cidade do Porto, tendo realizado 13 paisagens.
Como pretendo propor uma observação cogitativa, esta série inicia-se nos lugares da cidade dominados pelo selvagem. Contudo este selvagem é urbano e familiar, lembrando as fronteiras que construímos e cultivamos.
Tal como na pintura de paisagem flamenga ou francesa do séc. XVIII, estas pinturas remetem num tom ambíguo para o instante e para o nostálgico. Uma pintura que revela a sua origem de forma subtil, lembrando tanto os locais como as fronteiras que neles encontramos e construímos.

Tiros - Era Uma Vez

Era uma vez marca o início de um discurso narrativo cuja ordem das palavras é sequencial e autogerada por um certo movimento ordenado, pré-ordenado. Na história existe uma série de acontecimentos e é nesta sua interligação de causalidade e de efeito que se apresentam e representam os efeitos mais expressivos da narrativa, já então imaginada, recriada e transformada. Não só por quem a dá a conhecer mas, igualmente, por quem a recebe e, sequencialmente, domina, movimenta e desordena o que uma vez foi, para ser de novo, o que uma vez era e, repetidamente, o deixou de ser, em série.

Um
Era o rio, o teu corpo e uma árvore.

Dois
A água do rio move-se e tu observas.

Três
À sombra de uma árvore, esperas e permaneces.

Quatro
Reparas ao longe, bem longe, numa casa, duas e mais.

Cinco
Aproximas-te do rio sem deixar a sombra da árvore.

Seis
O movimento da água cria uma sequência harmoniosa de sons.

Sete
O teu corpo deixa a sombra da árvore e continua seguindo.

Oito
Caminhas com a água do rio, uma árvore e uma casa, duas e mais.

Nove
Era uma vez o rio, uma árvore e tu que os transformaste.

Susana Vilas-Boas

Tiros - Memento

Alexandre Coxo é, em primeiro lugar, um virtuoso e um observador do quotidianos. Talvez pela sua formação inicial, na área da saúde, tenha adquirido essa especial competência para a atenção ao detalhe. O seu trabalho tem despertado a atenção de públicos alargados e não é de estranhar, inclusive, os vários prémios e menções recebidos recentemente. Nesta nova série de trabalhos, o artista volta a combinar a geometria com a vista de paisagem, de uma forma dual, ainda que relacionada por uma paleta que já se tornou na sua imagem de marca. A sua produção é lenta, mantendo-se fiel ao óleo e à tela e aos seus tempos de secagem e formalidades de concepção. Alexandre Coxo é uma das promessas dos nossos dias e é por artistas com as suas características que, ainda que se apregoe o fim da arte, ela adquire dias na eternidade.

Helena Pereira